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riscos_e_rabiscos

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Reviravoltas da vida.

 

Reencontrei hoje uma colega de universidade que morava aqui ao pé de mim. Havai já algum tempo que não a via. E este foi um pretexto para fazer uma retrospectiva até aos meus tempos de universitária.

 

Eu e ela pertencíamos a grupos diferentes mas quando regressávamos a casa, vínhamos todas juntas. Éramos todas trabalhadoras estudantes. A maior parte de nós vivia com os pais mas ele, devido à dureza da vida, partilhava um apartamento com uma das irmãs.

 

Esta minha colega sempre teve muitas paranóias e manias mas eu dava me bem com ela e respeitava a sua maneira de ser. Ela era bastante inteligente – e sabia disso – o que a tornava numa pessoa um pouco arrogante. Mas quem não a conhecesse e olhasse para ela, incorria no pré-conceito de a classificar como toxicodependente ou coisa semelhante.

 

Terminada a universidade, seguimos caminhos diferentes: eu enveredei pelo ensino e entrei em estágio e ela parou por ali (talvez a decisão mais acertada!) e continuou a trabalhar no mesmo sítio onde já estava.

 

Alguns anos depois, voltámos a encontrar-nos. Nem parecia a mesma pessoa! Muito bem vestida e elegante, cabelos arranjados, sapatos de salto alto e unhas – que deixou de roer – arranjadas e pintadas de vermelho.

 

Fiquei a saber que também mudou de casa, de vida e de estilo. Aproximou-se de quem merecia e deixou para trás quem não merecia.

É bom ver que alguém se modificou para melhor, que está feliz e bem na vida. Sim, porque parece que isto é cada vez mais incomum nos dias de hoje…

 

Síndrome de Down

 

Quando cheguei a casa vinda da escola, fui buscar algo para comer e liguei a televisão. Para variar fiz zapping para escolher o programa que mais me agradava. Os quatro canais públicos têm uma “óptima” programação a esta hora, por isso, zarpei para os canais por cabo. Faço a voltinha do costume até que paro abruptamente na Sicmulher. Fiquei colada, imediatamente ao ecrã.

 

Deparo-me com uma mulher a falar cuja cara não me era estranha. De imediato, não me ocorreu quem era mas depois surgiu o nome em rodapé e surgiu um flash na minha mente. Era a S., uma colega minha de escola! Muito mais forte do que ela era mas com a mesma cara e cabelo, os mesmos lábios finos e nariz aguçado. Já não sei em que ano é que ela foi minha colega mas lembro-me que ela era uma miúda um pouco estranha. Muito comichosa com as suas coisas, uma mochila carregadíssima de tudo e mais alguma coisa, lambe botas dos professores, era franzina, vestia-se como uma adulta, tinha conversas e interesses diferentes dos próprios da idade. Era uma adulta em ponto pequeno. Não alinhava em nada com o resto do pessoal. Na altura já ela tinha um namorado de longa data. Não sei se se transformou no seu marido.

 

A S. estava no programa por causa da Síndrome de Down. Não acompanhei a conversa desde o início mas fiquei a saber que a sua segunda filha era portadora desta síndrome. Ao que me pareceu, não lhe foi detectado este problema durante a gravidez. Ela só ficou a saber que a sua bebé era “diferente” porque se apercebeu que todos estavam com demasiados cuidados com a criança. Ela estranhou tudo aquilo e exigiu saber o que se passava. Foi então que lhe expuseram o caso.

 

Contra factos não há argumentos. Ela aceitou a síndrome da bebé e não desanimou, nem baixou os braços. Procurou informação sobre o assunto para poder ajudar a criança o mais cedo possível. A menina tem neste momento dois anos e é uma criança bastante desenvolvida. É acompanhada nas Diferenças que é óptima!

 

Gostei imenso de ver a S. a falar sem mágoas ou reservas quanto ao problema da sua filha. Gostei muito de saber que ela não encarou o problema como uma tragédia mas sim como uma etapa nova da sua vida.

Não é fácil encararmos uma realidade destas. Todos temos o sonho de termos um bebé perfeito, lindo e rechonchudinho. Mas nem sempre é assim. E às vezes nem mesmo com 500 ecografias e análises e medições se conseguem detectar determinados problemas.

O choque deve ser enorme. Ninguém está preparado para receber a notícia de que o seu bebé não corresponde àquilo que tanto ansiámos e desejámos durante nove meses.

 

E quando é diagnosticado este problema durante a gravidez? O que fazer? Prosseguir com a gravidez? Interromper? Já se ama tanto aquele bebé. Mas estamos preparados para encarar este problema para o resto da vida? Psicológica e emocionalmente somos fortes o suficiente?

 

Admiro as mães que nunca baixaram os braços e partiram à descoberta deste novo desafio que é criar uma criança “diferente”. Que não desistiram dos filhos e buscaram apoio para lhes dar o melhor possível para torná-los autónomos e os integrar numa sociedade, ainda discriminatória, que é a nossa.